| Pirataria invade espaço aéreo.
Informação: ABERT - Associação
Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão
- 31/03/2008
Folha de Pernambuco - Grande Recife - Rádio
Rodolfo Bourbon
Piloto: "Controle, poderia confirmar o nível
liberado para 3251 da Varig?".
Controlador: "Podemos sim. Desça para
cinco mil pés, para uno 06 no altímetro".
?: "Vamos simbora... Pra um bar... Beber, cair,
levantar..."
Piloto: "Mili 18 ajustado para cinco mil na prod".
?: "Você curtiu o som do Aviões
do Forró na sua Rádio Pirata José".
Controlador: "Pode repetir a informação,
por favor?".
Piloto: "A freqüência está
sendo interferida".
(silêncio)
Os diálogos são hipotéticos,
mas a situação é bastante real.
Um sem-fim de emissoras de radiodifusão atuam
no Brasil sem autorização. Mas afinal:
o que são rádios 'piratas' e como elas
podem constituir perigo aos órgãos de
defesa nacional? A Folha busca elucidar este questionamento
e ainda explicar outras questões acerca do
universo destas rádios.
Inaugurada no dia 10 de junho de 1998, a Rádio
Paudalho FM entrou no ar sem pedir licença...
ao Ministério das Comunicações
- órgão regulador das atividades de
radiodifusão no País. A cidade situada
na Mata Norte de Pernambuco, de aproximadamente 50
mil habitantes, entrou em festa. Tudo ao vivo. "Ninguém
tinha noção de como funcionava uma emissora.
Achavam que era piada. Mesmo sem autorização,
minha persistência e vontade de divulgar notícias,
executar músicas e ajudar o povo da comunidade
falou mais alto", relembrou a proprietária
da rádio comunitária, Gilvanda Maria
da Silva. O 'volume' foi tão elevado, que chegou
aos ouvidos da Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel). A ordem do fechamento não vingou,
pois a dona do então canal clandestino garantiu
que já tinha tramitado o pedido da autorização
de funcionamento. Apesar disso, a dona do canal clandestino
precisou pagar uma multa de R$ 2mil.
Eis que pouco tempo depois, a tão sonhada
concessão aportou no estúdio de Gilvanda.
O caminho foi tortuoso. Vencer licitação
de espaço em uma determinada freqüência
de operação de rádio, apresentar
uma série de documentos e assinar termos de
compromissso ainda fizeram Gilvanda esperar um pouco
mais pela autorização. Porém,
uma vez outorgada, a Paudalho FM passou a atender
todas exigências direcionadas a rádios
comunitárias, a exemplo de transmissor com
potência máxima de 25 watts e raio de
veiculação de até um quilômetro,
a partir da antena emisssora das ondas eletromagnéticas.
"Além disso, o maior princípio
é se manter desvinculado a interesses comerciais
e de pessoas ligadas à política. Já
fiz entrega de cestas básicas aos espectadores
e diversas denúncias de atos ilícitos,
tendo, inclusive, necessitado me ausentar da cidade
por uns dias devido a ameaças", revelou
Gilvanda.
Embora a documentação tenha chegado
há mais de dois anos, a Paudalho FM ainda sofre
a estigma de 'rádio pirata'. O preconceito
não causa arrependimento a Gilvanda. "Não
faria novamente, mas me orgulho por não ter
desistido do sonho", afirmou. A conversa com
reportagem da Folha precisou ser interrompida: lá
estava a locutora narrando os principais fatos do
dia e colocando canções para embalar
outros sonhos da comunidade onde vive.
POTÊNCIA
"Muitas rádios comunitárias operam
com transmissores de até 25 watts, conforme
estabelecido na lei. Mas, por trás das aparências,
muitas escondem, em outros locais, amplificadores
que aumentam o poder de alcance". Quem faz a
denúncia é o engenheiro de telecomunicações
Nédio Cavalcanti. Um caso extremo é
exemplificado pelo profissional. "Em Alagoas,
no município de Belmiro Gouveia, a transmissão
conseguia atingir a cidade de Garanhuns (Interior
de Pernambuco). O aparelho possuía mil watts
de potência e a antena estava instalada em um
morro bastante elevado", revelou. Nédio
acredita que, caso houvesse mais fiscalização
e as concessões fossem disponibilizadas de
forma mais igualitária - atendendo ao povo
e não apenas aos políticos e às
instituições religiosas -, a clandestinidade
e as conseqüentes desordens, como a concorrência
desleal com as rádios comerciais, em relação
dos anúncios publicitários (proibidos
por lei), e interferências nas freqüências
seriam minimizadas.
"Rádios Livres" aposta no censo
de coletividade
O termo 'rádio pirata' surgiu no fim dos anos
50, na Inglaterra, para identificar as irradiações
emitidas por um navio, que apesar de estar localizado
na costa britânica, encontrava-se fora do controle
das milhas marítimas. O canal foi elaborado
por jovens que não aceitavam o monopólio
da comunicação exercido pelo governo
inglês. A tradição da contestação
ultrapassou as fronteiras do tempo e do espaço.
Espalhado por todo Brasil, o projeto Rádios
Livres encontrou em jovens estudantes pernambucanos
os líderes da empreitada. E o censo de coletividade
é justamente a proposta das atividades.
"Não há diretoria, gestão
centralizada ou interesses particulares. Nosso desejo
é proporcionar às pessoas as chances
de se libertarem da condição de meros
receptores para se tornarem agentes da informação",
explicou a aluna do curso de Letras da UFPE, Célia
Menezes.
Com idéias na cabeça, antena, transmissor
e mesa de som nas mãos, os jovens propagam
os ideais pelas comunidades, promovendo oficinas educativas
e realizando cobertura ao vivo de shows e eventos
culturais. "Nosso equipamento não tem
tanta potência e jamais poderia interferir em
outro tipo de freqüência", defendeu-se
Célia.
Saiba mais
Comunitárias - São as rádios
que podem veicular mensagens de apoio cultural de
empresas situadas em seu raio de abrangência.
Têm baixa potência, de até 25 watts,
e raio de veiculação de até mil
metros, a partir da antena transmissora.
Educativas - Rádios que podem ter apoio cultural
e patrocínio de programas com foco educativo.
Não podem veicular publicidade comercial, que
diga respeito a produto ou preço. Não
podem vender ou arrendar espaços para a veiculação
de mensagens.
Comerciais - Rádio que fazem núncio
promocional; comercializam os intervalos e a programação.
Tem custos com equipamentos e equipes de profissionais.
Paga impostos e participa de licitação
pública para obter e manter concessão.
Fonte: Asserpe
Campanha busca dar freio à clandestinidade
Ao longo de 70 anos, o telefone chegou aos lares
de 50 milhões de brasileiros. Para atingir
essa marca, o rádio levou 38 anos; a TV, 14;
e, a internet, apenas cinco. "Os avanços
na tecnologia seguiram a proporção do
aumento no consumo na ordem de 50 para cinco anos",
afirma o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio
Rezende. A proliferação das rádios
'piratas' parece ter seguido esse 'filão'.
Dados da Associação Brasileira de Rádio
e Televisão (Abert) apontam que, no ano passado,
foram fechadas mais de 2,3 mil emissoras clandestinas.
Estimativas extra-oficiais sugerem a existência
de mais de dez mil canais ilegais apenas em São
Paulo e Minas Gerais.
Em Pernambuco, os órgãos de fiscalização
estimam existir cerca de 200 emissoras clandestinas.
Para combatê-las, a Abert inicia nova ação
da Campanha de Combate à Pirataria. "Estamos
encaminhando spots (vinhetas) às 94 rádios
licenciadas em nossa associação para
divulgarmos mensagens de conscientização",
disse a gerente da Associação das Empresas
de Radiodifusão de Pernambuco (Asserpe), Gorete
Vieira.
Ranking
Cidades com maior número de rádios
ilegais 1ª - Recife
2ª - Cabo de Santo Agostinho
3ª - Olinda
4ª - Paudalho
5ª - Jaboatão dos Guararapes
6ª - Bezerros
7ª - Gravatá
8ª - Belo Jardim
9ª - São Lourenço da Mata
10ª - Abreu e Lima
Fonte: Anatel
Interferências dificultam pouso
Foram 61 intervenções nos sinais aéreos
do Cindacta 3 nos últimos oito meses
Rodolfo Bourbon
No Brasil, não há registro de acidente
provocado por interferência de radiodifusão
na rede de tráfego aéreo. Mesmo assim,
dificuldades de aterrissagem pela falha na comunicação
são rotineiras. O terceiro Centro Integrado
de Defesa Aérea e Controle Aéreo (Cindacta
3), responsável pelo monitoramento de quase
todo o território da região Nordeste,
incluindo a ilha de Fernando de Noronha, revela que,
nos últimos oito meses, ocorreram 61 intervenções
nos sinais. "Cerca de 20% dos distúrbios
acontecem na base do Recife. Músicas, propagandas
e diálogos interceptados que atrapalham o curso
natural das viagens", afirmou o comandante Luís
Gonzaga Leão, chefe do Cindacta 3, localizado
em uma base vizinha ao Aeroporto Internacional do
Recife/Guararapes - Gilberto Freyre.
O Sistema Móvel Aeronáutico (SMA) opera
nas unidades de medida de freqüência elétrica
entre 118 e 136 MegaHertz (MHz). A maior parte das
rádios atua abaixo dessa escala, a exemplo
dos meios comunitários licenciados, mas existem
possibilidades de emissão de sinais acima dessa
freqüência. Se o veículo midiático
estiver instalado nas proximidades de um aeroporto,
os equipamentos não forem devidamente ajustados
e o transmissor funcionar com extrema potência,
cresce a iminência das interferências.
O direito de concessão de uma rádio
por parte do Ministério das Comunicações
acontece após estudos da Agência Nacional
de Telecomunicações (Anatel), no qual
se verifica a disponibilidade de uma determinada freqüência.
"Caso contrário, as faixas seriam fixadas
de forma aleatória, com possibilidades de interferirem
em outro espaço reservado", explicou o
comandante Luís Gonzaga.
O procedimento adotado nos casos de problemas na
comunicação bilateral piloto-controlador
é acionar uma das duas (ou três, como
em algumas bases aéreas) freqüências
secundárias. As estações servem
como reserva para os casos de emergência. "Quando
há interrupções, solicitamos
a troca imediata. Dificilmente as interferências
atingem os outros canais. Mesmo assim, dependendo
da situação do vôo, a ação
atrapalha o fluxo normal do tráfego",
avaliou o comandante do Cindacta 3.
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