A emoção pelas ondas do rádio.
Informação: AESP - Associação
de Emissoras de Rádio e Televisão do Estado
de São Paulo - 05/01/2006
Folha de São Paulo Equilíbrio - Rádio
Quando eu era pequena, fazia muito esforço e prestava
muita atenção para entender o mundo das "gentes
grandes". Percebia que os adultos eram bem diferentes
das crianças.
Eles falavam de guerra, banco, dinheiro, duplicata, despejo
e tudo o mais que estava na órbita das necessidades
e trocas materiais. Sobre sentimentos e emoções,
os adultos de então pouco se manifestavam e, quando
o faziam, era tudo sem palavras, por gestos e olhares. Talvez
entre si eles falassem, desde que longe das crianças.
Mas nós tínhamos vias por onde as emoções
dos adultos nos chegavam: era pelo rádio.
Chegou a mim, há poucos dias, a notícia de
que as radionovelas vão voltar, e isso me inspirou
alguns pensamentos e lembranças que vou contar a
vocês, evocando tardes de 60 anos atrás. Cada
novela tinha sua música e, se eu bem me lembro, eram
predominantemente orquestrais, o que não foi para
mim uma má introdução, lenta, é
bem verdade, para o universo da música clássica.
E não só mas especialmente para a trama emocional
da vida adulta. Aí sim, na radionovela, conseguíamos
perceber o que havia atrás dos rostos sérios
e compenetrados dos familiares, vizinhos e mestres, tudo
gente grande.
Colocado desta forma, poderia parecer que vivíamos
uma vida hipócrita, mas não era, não.
Havia, é verdade, muito mais contenção,
tolerância à angústia, tudo isso em
nome do respeito ao outro, especialmente à mente
pura de nós, crianças. Nossas cabecinhas eram
vistas como frágeis, o que não chega a ser
mentira, nem hoje.
Estou torcendo para a novela de rádio voltar e nos
trazer de volta o uso da mão e do olho para criar,
transformar, em resumo, para que possamos voltar a fazer
enquanto podemos continuar a sonhar
As emoções que nos chegavam pelas ondas do
rádio, nós sabíamos que era ficção,
e aceitávamos de bom grado esse faz-de-conta. Enquanto
isso, os adultos preservavam-se. Lembro-me de que a troca
de olhar dos adultos era freqüentemente muito expressiva,
para dar a entender que certas coisas "não eram
para ser ditas na frente das crianças". A gente
sabia disso e não reclamava. Inveja, ciúme,
saudade, dores de ruptura existiam, mas não éramos
informados sobre isso.
A radionovela nos esclarecia sobre o que era vivido, o
que acontecia naturalmente no mundo dos adultos. Nós
éramos, até um certo ponto, preservados disso
tudo. Sobre radionovela, não me lembro que existisse
censura. A confiança da família parecia ser
total sobre o que ia ser apresentado nas rádios.
Ninguém se preocupava em desligar o rádio
em certos momentos. Talvez alguns programas cômicos,
que só passavam tarde da noite, não fossem
para crianças, mas elas já estavam dormindo.
Avós, mães e filhas acompanhavam as novelas
sempre juntas. Os meninos ficavam de longe, mas não
deixavam de saber o teor das narrativas. A radionovela fazia
parte do mundo feminino. Era o mundo visto pela ótica
das mulheres e apresentado sempre à tarde.
Parece que pensam em trazer de volta esta maravilha da
minha infância, e vou tentar explicar por que acho
a notícia tão maravilhosa. Porque, enquanto
se escuta, continua-se a fazer. Enquanto se escuta, tricota-se,
lava-se o cabelo, trata-se da pele, faz-se mãos e
pés. Era em volta do rádio que aprendíamos
essas artes do feminino. Uma geração aprendia
com a outra. As mais velhas passavam para as mais novas
tudo sobre o cuidado do corpo, da roupa, da limpeza e da
feitura dos alimentos. Por observação e imitação,
a sabedoria era passada adiante, sem ordem expressa e sem
receita. Compartilhava-se enquanto se tricotava, se crocheteava,
bordava, cerzia, e o rádio continuava descrevendo
as emoções não expressas do cotidiano
e, muitas vezes, também hábitos e costumes
que não conhecíamos. Estou torcendo para a
novela de rádio voltar e nos trazer de volta o uso
da mão e do olho para criar, transformar, em resumo,
para que possamos voltar a fazer enquanto podemos continuar
a sonhar.
Espero que a idéia vingue e o fazer junto retorne
às nossas horas vagas. Além de fazer, enquanto
o rádio toca e fala, uns podem montar quebra-cabeça,
recortar, arrumar coleções. E, como algo a
mais, ainda temos uma janela aberta para o universo emocional,
onde os mitos podem ser revividos e, mais tarde, até
criticados e execrados, se for o caso. Enquanto sonhávamos,
não parávamos de viver. Tão diferente
do semi-autismo da nossa atitude diante da tela da televisão.
ANNA VERONICA MAUTNER , psicanalista da Sociedade Brasileira
de Psicanálise de São Paulo, é autora
de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora)
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